Borboletas Noturnas nas Vinhas: Aliadas Discretas na Biodiversidade e no Equilíbrio do Ecossistema

10-07-2025

As vinhas, para além da sua importância económica e paisagística, são também habitats onde se cruzam inúmeras espécies. Entre os habitantes mais ignorados, mas de grande valor ecológico, estão as borboletas noturnas. Muitas vezes vistas apenas como pragas, estas espécies desempenham papéis fundamentais no equilíbrio dos ecossistemas agrícolas. 

Borboletas Noturnas: Essenciais para o Funcionamento do Ecossistema

Em Portugal existem cerca de 2.700 espécies de borboletas noturnas. Muitas destas espécies contribuem para a polinização noturna, assegurando a reprodução de plantas silvestres e de algumas espécies cultivadas. Além disso, tanto na fase de lagarta como na fase adulta, as borboletas noturnas são um recurso alimentar essencial para aves insetívoras, morcegos, répteis, anfíbios, aranhas e diversos insetos predadores.

Entre estes predadores destacam-se as vespas parasitóides da família Ichneumonidae, que colocam os seus ovos nas lagartas, ajudando assim no controlo natural de várias espécies, incluindo algumas pragas conhecidas das vinhas, como a traça-da-uva (Lobesia botrana). Uma comunidade diversa de borboletas noturnas, incluindo espécies que se alimentam de gramíneas, arbustos e árvores, contribui para atrair estes inimigos naturais e fortalecer a cadeia trófica que regula o ecossistema.

Lobesia botrana

Desta forma, a presença de diferentes espécies de borboletas noturnas não só alimenta a biodiversidade geral, como pode também desempenhar um papel indireto na redução das pragas que afetam a produção vitivinícola. 

Importância dos Habitats Naturais nas Vinhas

Independentemente do sistema agrícola adotado, a presença de elementos naturais nas vinhas, como bordaduras vegetadas, zonas de vegetação espontânea, galerias ripícolas e sebes, desempenha um papel crucial na conservação da biodiversidade.

Estes habitats oferecem abrigo, alimento e locais de reprodução não só para borboletas noturnas, mas também para inúmeros polinizadores e predadores naturais. Além disso, funcionam como corredores ecológicos e "reservatórios" de biodiversidade, permitindo o movimento das espécies entre as diferentes parcelas agrícolas e áreas naturais vizinhas.

A preservação destes espaços contribui para um ecossistema agrícola mais equilibrado e resiliente, favorecendo o controlo natural de pragas, independentemente de o agricultor seguir práticas convencionais, integradas ou regenerativas.

Borboletas Noturnas como Bioindicadoras de Biodiversidade

As borboletas noturnas não são apenas agentes ecológicos ativos, mas também excelentes bioindicadoras. Por serem muito sensíveis a alterações no habitat, ao uso de agroquímicos e a outras perturbações ambientais, a sua presença e diversidade refletem o estado ecológico de uma exploração agrícola.

O AgroLepi dedica-se precisamente a este trabalho, promovendo o inventário e monitorização de borboletas noturnas em paisagens agrícolas. Através deste projeto, é possível gerar bioindicadores fiáveis de biodiversidade, que ajudam produtores e gestores agrícolas a:

  • Identificar parcelas com maior riqueza ecológica;
  • Avaliar o papel de habitats naturais na conservação da biodiversidade;
  • Monitorizar o impacto de práticas agrícolas no ecossistema;
  • Produzir dados úteis para certificações, relatórios de sustentabilidade ou estratégias de gestão.

Atualmente, o AgroLepi colabora com várias explorações agrícolas em Portugal, incluindo vinhas, pomares e outras culturas.

Rumo a Vinhas Mais Biodiversas e Resilientes

Embora algumas espécies de borboletas noturnas possam assumir o papel de pragas, a maioria contribui para o equilíbrio ecológico e a saúde do ecossistema agrícola. Ao preservar a diversidade de habitats e monitorizar estas espécies, é possível transformar as vinhas em sistemas mais sustentáveis e equilibrados, onde a biodiversidade e a produção agrícola coexistem de forma benéfica.

As borboletas noturnas são um exemplo claro de como a natureza oferece soluções discretas, mas eficazes, para a gestão e valorização do território agrícola.